Artigo: A influência negativa de Obama

21/10/2009 at 3:25 pm Deixe um comentário

Naomi Klein

Do The New York Times

Entre todas as explicações dadas para que Barack Obama tenha recebido o Prêmio Nobel da Paz, a mais sincera veio do presidente francês Nicolas Sarkozy: “Ressalta a volta dos Estados Unidos ao coração de todos os povos do mundo”. Em outras palavras, essa foi a forma pela qual a Europa disse aos Estados Unidos: “Queremos ter você de volta”, algo parecido a essas estranhas cerimônias de “renovação dos votos” que os casais fazem após superar um período difícil. Agora que a Europa e os Estados Unidos estão oficialmente unidos, cabe perguntar: isso é bom?

O Comitê Nobel, que concedeu o prêmio em função de Obama ter decidido exercer uma “diplomacia multilateral” evidentemente está convencido de que a reinserção dos Estados Unidos no cenário mundial é uma vitória para a paz e a justiça. Eu não tenho tanta certeza. Com nove meses no cargo, Obama já apresenta um evidente currículo como protagonista mundial. Em várias oportunidades os negociadores dos Estados Unidos optaram por não reforçar as leis e protocolos internacionais e sim enfraquecê-los, numa atitude que levou os demais países ricos ao fundo do poço.

Vamos analisar primeiro a questão mais importante. Durante os anos Bush, a diferença entre os Estados Unidos e os políticos europeus era que estes expressavam o seu inalterável compromisso com o Protocolo de Kyoto. Enquanto os Estados Unidos aumentavam em 20 por cento as suas emissões de dióxido de carbono com relação aos níveis de 1990, os países da União Europeia reduziram as suas em 2 por cento. Não é uma maravilha, mas é um claro exemplo de como o distanciamento entre a UE e os Estados Unidos trouxe benefícios concretos para o planeta.

Vamos avançar rapidamente para as negociações sobre o clima que ocorreram há pouco em Bangkok, onde havia grandes expectativas. Esperava-se que as negociações apontassem para um acordo na reunião de Copenhague, a ser realizada em dezembro, que reforçasse de forma significativa o Protocolo de Kyoto. Ao invés disso, no entanto, os Estados Unidos, a UE e os demais países desenvolvidos criaram um bloco unificado que defendeu a anulação e substituição do protocolo de Kyoto.

Enquanto Kyoto estabelecia metas claras e obrigatórias para a redução das emissões, a proposta dos Estados Unidos estabelece que cada país decida quanto vai reduzir e depois submeta essas metas ao controle internacional (sem qualquer garantia de que isso manterá a temperatura do planeta abaixo dos níveis catastróficos). E enquanto Kyoto responsabilizava diretamente os países ricos que geraram a crise, o novo projeto trata a todos os países por igual. Este tipo de propostas sem fundamento não chegam a surpreender quando vem dos Estados Unidos.

O que surpreendeu foi a repentina unidade do mundo rico em torno deste novo projeto, inclusive com a adesão de muitos países que antes elogiavam o protocolo de Kyoto. Aconteceram mais traições: A União Europeia, que tinha anunciado a disposição de investir entre 1,9 e 3,5 bilhões de dólares por ano para ajudar os países em desenvolvimento a se adaptarem à mudança climática, chegou a Bangkok com uma oferta bem menor, uma proposta que está mais alinhada com a dos Estados Unidos, de praticamente… nada.

Antonio Hill, da organização humanitária britânica Oxfam, resumiu assim as negociações: “Quando foi dada a largada, houve uma corrida para o fundo, com os países ricos enfraquecendo os compromissos internacionais que já existiam”. Esta não foi a primeira vez que houve retrocesso na mesa de negociações, deixando como resultado as mesas viradas, com as leis e convenções espalhadas pelo chão.

Obama

Os Estados Unidos desempenharam um papel semelhante na Conferência da ONU sobre o racismo, realizada em Genebra, em abril deste ano. Depois de conseguir eliminar vários pontos do texto de negociações – nenhuma referência a Israel ou aos palestinos, nada sobre compensações devido à escravidão, etc. – a administração Obama decidiu boicotar a Conferência a qualquer custo, afirmando que o novo texto “reafirma” o documento adotado em 2001 em Durban, na África do Sul.

Trata-se de uma desculpa muito fraca e sem sentido, uma vez que os Estados Unidos não tinham assinado o documento original. O que não teve sentido foi o fato de o gesto ter sido imitado pelo mundo rico. 48 horas depois do anúncio da retirada dos Estados Unidos, a Itália, a Austrália, a Alemanha, os Países Baixos, a Nova Zelândia e a Polônia também tinham se retirado.

Diferente dos Estados Unidos, esses países tinham assinado a declaração de 2001, portanto não tinham motivos para fazer objeções ao documento que a reafirmava. Esse fato foi ignorado pelos países. Assim como aconteceu com as negociações sobre o clima, alinhar-se com Obama, que tem uma reputação impecável, era uma forma fácil de evitar as pesadas obrigações internacionais e, ao mesmo tempo, parecer progressistas – um serviço que os Estados Unidos nunca puderam oferecer durante os anos Bush.

Os Estados Unidos exerceram uma influência negativa semelhante como novo membro do Conselho dos Direitos Humanos da ONU. O seu teste de fogo foi o valente relatório do juiz Richard Goldstone a respeito do ataque israelense a Gaza, no qual apontou que tanto Israel quanto o Hamas tinham cometido crimes de guerra.

Ao invés de demonstrar o seu compromisso com a lei internacional, os Estados Unidos fizeram uso da sua influência para desacreditar o relatório, classificando-o de “profundamente defeituoso” e para forçar a Autoridade Palestina a retirar uma moção de apoio. (A AP, que enfrentou uma reação furiosa quando voltou para casa por ter cedido à pressão norte-americana, provavelmente introduza uma nova versão da moção). E também estão as reuniões de cúpula do G-20, uma das participações multilaterais com o mais alto perfil de Obama.

Quando a reunião do G-20 foi realizada em Londres, em abril, por um momento pareceu que poderia haver algum tipo de esforço internacional coordenado para frear os especuladores financeiros internacionais e os que promovem a evasão de impostos. Sarkozy prometeu, inclusive, retirar-se da reunião de cúpula caso não se chegasse a compromissos regulatórios sérios.

Mas a administração Obama não tinha qualquer interesse no multilateralismo autêntico e no seu lugar apresentou uma proposta para que cada país elaborasse o seu projeto próprio (ou que não o fizesse) e que confiaram que o melhor aconteceria – assim como ocorreu com a sua proposta para a mudança climática. Não é necessário dizer que Sarkozy não foi a qualquer outro lugar que não fosse a sessão de fotos para tirar a sua ao lado de Obama.

Claro que Obama teve alguns movimentos positivos no cenário mundial: não apoiar o governo golpista de Honduras e dar o seu respaldo para a realização de uma Agenda para a Mulher na ONU. Mas emerge adotando o padrão claro: nas áreas em que outros países ricos estavam oscilando entre a ação baseada em princípios e a negligência, as ações dos Estados Unidos as fizeram inclinar-se para a negligência. Se esta é a nova era de multilateralismo, não é nada digno de premiação.

Naomi Klein, colunista do The Nation e The Guardian em Londres, é autora de The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism. Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate

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